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A saúde mental na comunidade LGBTQI+ pede socorro

Não se trata “apenas” da violência sexual e do preconceito. A tradição cis-heteronormativa se impõe em ambientes supostamente progressistas como as universidades e até mesmo nos consultórios de psicologia.



Jaqueline Gomes de Jesus*, professora de psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro, doutora em psicologia social pela UnB, primeira gestora do sistema de cotas para negras e negros da instituição, pós doutora em ciências sociais pela FGV, participa de um interessante estudo sobre a saúde mental da comunidade LGBTQI+, que investiga ansiedade, depressão, transtornos de estresse pós-traumático e suicidalidade em diversos países entre os quais o nosso.


No caso brasileiro, há muitos retrocessos e pontos de atenção, mas também avanços.

“Eu sou Jaqueline Gomes de Jesus, sou carioca nascida em Brasília ou uma candanga que vive no Rio de Janeiro. Venho de uma família negra de imigrantes que construíram Brasília. Sou psicóloga, uma mulher trans negra que cresceu na periferia do Brasil em Ceilândia, fui uma criança que era vista como transviada. Enfrentei muitos desafios para chegar aonde estou como acadêmica, e hoje reconheço as conquistas que eu tive”.


“Tem um problema que existe de reduzir as pessoas – esse ser humano complexo -, a certas marcações da sua identidade. Por exemplo, quando a gente fala “como atender uma pessoa LGBT+ em um consultório”, já errou se achar que a pessoa é só LGBT+, porque a pessoa não é só LGBT+. Não importa se for um homem branco cisgênero hetero, ele também é diverso e eu tenho que considerar ele, inclusive, nessas dimensões do privilégio. E eu tenho que entender essa pessoa LGBT+ na sua pluralidade: ela é uma pessoa branca? Ela é uma pessoa negra? Indígena? Ela é uma mulher? Um homem? Uma pessoa não-binária? Onde ela mora? Qual o contexto histórico dela? Não tem fuga, nós precisamos sempre entender o ser humano na sua complexidade. Se não, vamos reduzir ele aos estereótipos que a cultura atribui ao sujeito. Então a gente tem uma marcação necessária de conhecimento, e de conhecimento não só das categorias mas também do indivíduo a fundo. É preciso entendê-lo na sua complexidade, não desconsiderando a sua diversidade”.


“Diverso todo ser humano é. O que acontece historicamente nas práticas de saúde mental, científicas, na psicologia, nas diferentes áreas psi, é uma desconsideração dessa diversidade, como se a idealização de um sujeito universal funcionasse, e a gente sabe que não funciona. São perspectivas falsamente universais que falam do ser humano mas na verdade têm como modelo o homem branco cis-gênero supostamente hetero.


Nesse campo das discriminações em forma geral o próprio profissional [de saúde mental] tem essa dificuldade de ver um sujeito como um sujeito. E esse profissional, como tem dificuldade de entender essas dimensões, acaba tendo um discurso, que a gente chama de forma pejorativa, de “psicologizante” – que desconsidera o contexto do paciente”.


“As pessoas geralmente não buscam o consultório para questionarem por que elas são cis, ou por que elas se identificam com o gênero que lhes foi atribuído. Porque a própria cultura não questiona isso. A cultura já espera que você fique com o gênero [biológico]”.


“O que se tem abordado dentro da academia no Brasil infelizmente ainda traz esse recorte eurocêntrico, que obviamente pelas lógicas históricas, é uma lógica cis-heteronormativa. Cis-gênero porque exclui a população trans e heteronormativa no sentido da não perspectiva de outras orientações sexuais e formas de expressão que não sejam dentro de um estereótipo de uma heterossexualidade compulsória.

Nós temos trabalhado para mudar isso. Porque a própria estrutura institucional da psicologia no Brasil, apesar de ter avançado muito pelos conselhos, mesmo no campo da educação ainda é muito fortemente ligada a essa tradição. Essa tradição que para além de ser cis-heteronormativa, é racista, machista, classista”.


“A última epidemia do HIV-AIDS marcou muito a população LGBT+, trouxe esse estereótipo de reduzir a identidade de pessoas que são LGBT+ a sexualidade, a direitos sexuais e doenças sexualmente transmissíveis, como se não tivessem origem, identidade étnico-racial, deficiências e etc.”


“Ainda há escassez de estudos sobre a saúde mental da população LGBT+. (…) Nós investigamos ansiedade, depressão, transtornos de estresse pós-traumático e suicidalidade em vários países.


O Brasil, particularmente, é um país em que as pessoas são extremamente ansiosas, mais do que em outros lugares. Aqui no Brasil existe muita ideação, planejamento suicida entre as travestis, mulheres trans e muitos homens trans. Os homens trans têm um nível de estresse pós-traumático também ligado às experiências de “estupro corretivo”, que é uma experiência de algumas mulheres lésbicas”.


“Com relação à população bissexual, o Brasil foi o país em que identificamos mais bifobia. A minha tese em ralação a isso tem a ver com a cultura que a gente vive no Brasil, que em termos da diversidade sexual é extremamente monossexual. Há dificuldade de entender a diversidade sexual fora dos parâmetros de heterossexualidade ou mesmo de homossexualidade. E a bissexualidade que está fora desses espectros da monossexualidade acaba sendo alvo de muitas violações e dificuldades de se afirmar”.


“Aqui no Brasil é muito naturalizado, particularmente para a população trans, o direito ao acesso a qualquer espaço social, a qualquer campo. Isso é uma luta, não é questionado se a população pode ou não, é se está tendo acesso. Já é avanço com relação a outros países, como por exemplo o Quênia”.

“O próprio Freud que foi tão referenciado para justificar a LGBTfobia na prática terapêutica, tinha posicionamentos extremamente inclusivos. Ele recebeu a mãe de uma menina homossexual, fez uma carta muito bonita. São paradoxos que existem e que fazem parte desse processo de formação da psicanálise”.


“Na verdade, essa educação para a diversidade deveria vir desde a creche, desde a educação infantil, isso seria o ideal. Mas particularmente com relação aos profissionais do ensino superior, todo o curso deveria ter uma formação no currículo sobre gênero, sobre diversidade de forma geral, esse é o grande desafio”.

“Na pandemia, já se sabe que muitos tiveram que ficar nas casas com os parentes em espaços às vezes muito fechados. Pessoas que já sofriam discriminação ali ganharam esse contexto de ter que ficar permanentemente em casa com aquele outro que já tinha discursos LGBTfóbicos. Por exemplo, tive que atender um paciente e ele tinha que falar das questões de sua vida dela ao lado da pessoa que era violadora”.


“A eleição dele [Bolsonaro] foi uma tristeza gigantesca para a população LGBT+. Foi realmente um baque para a população LGBT+ em reconhecer, acima de tudo, que a população brasileira elegeu uma pessoa que era explicitamente LGBTfóbica. No período depois das eleições [de 2018] eu já tinha recebido muitas tentativas de suicídio. O grau de depressão aumentou muito”.


“No governo federal tem um Ministério da Mulher, e a questão é: qual mulher? Qual mulheridade está sendo defendida? Na Fundação Palmares que mantém a nossa cultura afrobrasileira, qual a perspectiva da pessoa negra que está dirigindo a Palmares? Inclusive tem uma secretária LGBT neste governo, mas quando houve uma reunião do Mercosul ano passado essa secretária LGBT foi para lá adotando a posição do governo brasileiro de não acatar formalmente os documentos para utilizar os termos “crime de ódio” para LGBTfobia, nem os termos “orientação sexual” e “identidade de gênero” nas documentações oficiais”.


“Eu acho que infelizmente nem todos vão sobreviver – converso muito isso com meu marido. Nós temos que pensar qual forma nós vamos dar para cuidar das pessoas. Primeiro cuidar da gente, como vamos sobreviver, como vamos nos cuidar nesse contexto não só da pandemia mas de tudo que nós temos vivido. O que me dá particularmente esperança é lembrar das nossas ancestrais, da nossa ancestralidade, de quantas mulheres negras, indígenas, LGBTs em outras épocas, resistiram”.


* Jaqueline Gomes de Jesus é Diretora do Conselho de Apoio Psicossocial do SEMEAR


Essa matéria foi publicada dia 30/06/2021 no ESTADO DE SÃO PAULO e está disponível em: https://brasil.estadao.com.br/blogs/inconsciente-coletivo/a-saude-mental-na-comunidade-lgbtqi-pede-socorro/

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